sábado, 13 de março de 2010

O PERCURSO HISTÓRICO DA LINGÜÍSTICA APLICADA: FATOS E CONTRIBUIÇÕES

A Lingüística Aplicada, enquanto ciência com metodologia e conceitos próprios, ainda hoje é constantemente questionada pelos estudiosos da área da linguagem. Decorrente do amadurecimento intelectual dos lingüistas aplicados, o desenvolvimento da referida disciplina atravessou várias etapas, as quais foram essenciais para uma formação mais consciente do profissional envolvido neste campo nos tempos atuais.
Proponho-me a partir do exposto, enfocar alguns aspectos históricos do desenvolvimento da Lingüística Aplicada, relacionando alguns fatores responsáveis por sua origem, bem como algumas teorias que a influenciaram diretamente, salientando assim, o esforço de profissionais da área pela busca da autonomia científica da disciplina.
Para tanto, o referencial teórico traz reflexões e contribuições de Cavalcanti (1986; 1990), Almeida Filho (1987;1991), Celani (1992;2000) e Silva (1994).Um tópico também será desenvolvido a partir de sua contribuição para mim enquanto acadêmica de no que tange às discussões fundamentadas realizadas em sala de aula sobre a disciplina em questão.
A primeira parte do trabalho consistirá em uma tentativa de delinear os traços históricos gerais do desenvolvimento da Lingüística Aplicada. Na segunda parte, será exposto meu posicionamento e reflexão, acerca das discussões realizadas sobre Lingüística Aplicada (história e conceitos).
Panorama histórico
O ensino de línguas estrangeiras é uma tema que há muito tempo tem estado em pauta em vários países do mundo. Este fenômeno, cuja origem data de vários séculos, se manifestou com maior intensidade durante a II Guerra Mundial (1939-1945) nos Estados Unidos e Europa, sendo tal fato responsável pela atribuição de cientificidade ao estudo da linguagem. Anteriormente a tal período, o sentido científico do ensino de línguas havia sido proposto por vários autores de forma vanguardista e isolada, segundo Almeida Filho (1987).
Silva (1994) também destaca como era o ensino de línguas antes da II Guerra Mundial:
...o nível do ensino em geral era deplorável, uma vez que o método utilizado era o da ‘gramática e tradução’, inspirado no ensino das línguas mortas, com o objetivo único de ensinar a ler. Como não havia nenhuma influência da teoria lingüística nesse tipo de ensino, convencionou-se chamar essa época de ‘pré-lingüística’ para a pedagogia de línguas. (cf. SILVA, 1994:90)
Os lingüistas, conseqüentemente, foram responsáveis pelos progressos realizados no ensino de línguas, durante a II Guerra Mundial, visto a necessidade de realizar contatos com os aliados e inimigos falantes de outras línguas, o que resultou em um vasto campo de estudo e produção de material teórico e prático. É válido ressaltar que a Lingüística Aplicada, até então, não havia sido convencionada ainda como forma de teorização sobre os processos de ensino/aprendizagem de línguas, mas é uma fase inicial que influenciou diretamente o desenvolvimento da disciplina nos anos posteriores.
A partir de tais transformações, os métodos práticos e objetivos de ensino da língua estrangeira se propagaram rapidamente pelo mundo ocidental. Surge, então, a partir dos anos 40, estendendo-se às décadas de 50 e 60, métodos audiovisuais e exercícios estruturais para o ensino de línguas. Esse fato, exposto por Silva (1994), reforça o início da sistematização da Lingüística Aplicada, com o sentido de “aplicação da lingüística”, cuja metodologia baseava-se em duas grandes correntes lingüísticas da época, o estruturalismo e o gerativismo, cujos períodos foram também citados por Cavalcanti (1986).
Segundo a autora, o estruturalismo é fundamentado pela concepção Behaviorista da linguagem, cuja teoria propõe automatismos necessários para a aprendizagem. Logo, a aprendizagem de uma língua seria o resultado de um processo de formação de hábitos.
Já o Gerativismo, considera a língua como um fenômeno criativo e constituído por um número finito de regras que permitem ao falante formar um número infinito de sentenças gramaticais, segundo as concepções divulgadas por Chomsky na década de 50. Essa teoria contribuiu para o aprimoramento do ensino de línguas no sentido de compreensão mais profunda do funcionamento do sistema da língua estudada bem como as generalizações feitas por tal gramática, o que facilitaria o aprendizado de uma língua estrangeira.
Sobre este aspecto, Almeida Filho (1987) ressalva que :
Como se tratava de ensino-aprendizagem de línguas, pareceu correto e natural a princípio [ a Lingüística Aplicada] utilizar os resultados da pesquisa científica e prestigiosa da lingüística nos anos 50 e 60. E assim, nasceram os cursos de lingüística aplicada do tronco da lingüística teórica. ( cf. ALMEIDA FILHO, 1987: 20)
Na década de 70, a Lingüística Aplicada, equivalente ao ensino de línguas, em tal período, organizou procedimentos importantes como a análise contrastiva e a análise de erros, citados por Almeida Filho (1987), sendo que o campo da tradução é acrescentada por Silva (1994).
É a partir dos anos 80, enfim , que a Lingüística Aplicada adquiriu certa autonomia em relação à Lingüística teórica. Almeida Filho aborda tal período, ressaltando que “ A visão de Lingüística Aplicada nos Anos 80 é muito mais abrangente do que um esforço sistemático de aplicação da Lingüística teórica.” (ALMEIDA FILHO, 1897:22)
Percebe-se, por outro lado, que Cavalcanti já em 1986, no início da firmação da Lingüística Aplicada com objeto de estudo e metodologia próprios, tenta apontar o seu caráter científico e disciplinar.
A Lingüística Aplicada é abrangente e multidisciplinar e, sua preocupação com questões de uso da linguagem. Ela tem um objeto de estudo, princípios e metodologia próprios, e já começou a desenvolver seus modelos teóricos. Dada sua abrangência e multidisciplinaridade, é importante desfazer os equacionamentos da Lingüística Aplicada com a aplicação de teorias lingüísticas e com o ensino de línguas. (cf. CAVALCANTI, 1986:09)
É importante observar que a autora no desenvolvimento de um outro texto em que aborda a mesma temática, reforça a tentativa de conceituação de Lingüística Aplicada, e traça um panorama geral, de forma não exaustiva das pesquisas desenvolvidas na área desde 1986 até 1990. Sobre a primeira questão temos:“ A Lingüística Aplicada é uma área de investigação de domínio próprio que tem como objetivo identificar e analisar questões de linguagem na prática dentro ou fora do contexto escolar.” Percebe-se o fato de que a disciplina de Lingüística Aplicada, recebe ainda hoje inúmeras interpretações acerca de sua definição sendo objeto de várias discussões.
Uma delas concerne a discussão da proposta de uma nova tabela de classificação das áreas de conhecimento (CNPq), na qual a ex-presidente da ALAB, Vera Menezes (2005), sugere que a Lingüística Aplicada seja concebida como nova área, devido a solidez com que se configuram suas pesquisas no Brasil e os programas de pós-graduação na disciplina que envolvem estudos em ensino/aprendizagem de línguas materna e estrangeiras, tradução, discurso, aquisição, lexicologia, formação de professores de línguas, gêneros, identidade, linguagem e novas tecnologias, letramento, aprendizagem e interação, entre outros. Menezes também ressalva as associações da área, a nacional (ALAB) e a internacional (AILA) evidenciando que a referida disciplina não pode mais ser identificada como uma ramificação da Lingüística, visto que adquiriu autonomia gerando suas próprias teorias.
A mesma ressalta ainda, que esta mudança encontra certa resistência entre os profissionais da área, visto que estes ainda consideram a Lingüística Aplicada com a aplicação de teorias da Lingüística, apesar do crescimento dos programas referentes à ela.
No Brasil, a Lingüística Aplicada tem uma história recente, cujo início data das décadas de 70 e 80. A disciplina se disseminou principalmente através dos programas de pós-graduação e associações criadas visando o intercâmbio de pesquisa docente. Cavalcanti (1990) cita alguns eventos e programas importantes que são responsáveis pela afirmação da área, sendo que alguns deles estavam se iniciando na data em que a autora escreveu o texto; hoje são fundamentais para a divulgação de pesquisas, bem como o desenvolvimento das mesmas, como a Associação de Lingüística Aplicada do Brasil – ALAB e os programas de pós-graduação na PUC/SP e UNICAMP, os mais importantes no país.
Na verdade, é marcante atualmente a atuação da Lingüística Aplicada no Brasil no que concerne à precária situação da educação no país. Tendo em vista as diversas áreas de atuação da disciplina, Celani (2000) destaca que esta, busca soluções para tal situação:
[...]
Destarte, a atuação da Lingüística Aplicada se tornou mais abrangente, contribuindo para várias áreas em uma política educacional brasileira, como ressalta Celani (2000), entre elas: alfabetização, letramento, relação entre linguagem e trabalho, línguas estrangeiras, educação bilíngüe, formação de docentes (em formação, em serviço, pós-graduação) e em práticas pedagógicas.
Contribuição para o conhecimento
[...]
Durante a leitura dos textos indicados e nas discussões em sala de aula, percebi que a disciplina em questão é muito mais abrangente do que simplesmente “aplicar a lingüística”. A partir da contribuição teórica exposta na primeira parte deste trabalho, percebo que tal concepção não é completamente equivocada, visto que o início da trajetória da Lingüística Aplicada é marcada por tal idéia.
A aplicação das teorias lingüísticas no ensino de línguas é uma concepção que permeia o surgimento da Lingüística Aplicada até a sua firmação em meados dos anos 80 e até hoje causa discussões entre os estudiosos da área conforme afirmação de Menezes apresentado anteriormente. Logo, parece natural e correto que indivíduos, quando tentam conceituar a disciplina pela primeira vez, atribuam tal concepção.
Quando se dispõe a investigar um pouco mais a fundo a Lingüística Aplicada, vemos quão grande é a produção científica bem como discussões acerca de seus conceitos e métodos, hoje em dia, as quais tentam afirmar seu caráter multidisciplinar. Percebe-se a importância destas pesquisas, que teorizando através de questões do uso da linguagem, nos auxiliam em nossa formação, enquanto graduandos conscientes de nosso papel reflexivo e crítico do nosso futuro trabalho.
[...]
Conclusões: importância das noções históricas
Diante da multidisciplinaridade da Lingüística Aplicada, que não atinge somente a sala de aula, mas vários outros contextos sociais, é importante desmistificar a idéia de que essa disciplina se refere somente à aplicação da Lingüística. É importante ressaltar no entanto, que não se deve excluir totalmente as contribuições da ciência da linguagem, pois foram a partir delas que a Lingüística Aplicada se fundamentou.
Deve-se ressaltar que a Lingüística Aplicada busca subsídios teóricos em várias áreas de investigação relevantes. Logo, não se deve atribuir a concepção inicial da Lingüística Aplicada como “aplicação da lingüística” como totalmente errônea, visto que primeiramente o indivíduo deve ser exposto à um mínimo de informações sobre o surgimento da Lingüística Aplicada bem como seu percurso até os dias atuais, para então construir o conhecimento apropriado sobre a disciplina. Disposição e boas expectativas são fundamentais para descobrir esta rica área de investigação sobre as questões de uso da linguagem que serão encontradas em nossa prática pedagógica ou em qualquer outro contexto social.
SILVA, Érica Danielle. (G- Letras - Inglês / UEM, 2005)

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